#69 - Sharp Objects
Gone Girl é, possivelmente, um dos livros mais mind fuck que já tive o prazer de ler. É incrível a maneira como Gillian Flynn constrói a história sem nunca nos revelar os verdadeiros intentos de cada personagem até ao último minuto. Mesmo os momentos que se tornam algo previsíveis nos enchem de estupefação, e nos fazem virar a página mais depressa do que a anterior.
Por isso, foi com a certeza de que também ia adorar Sharp Objects que me dediquei à sua leitura. Infelizmente, saí um bocadinho defraudada nas minhas expectativas. Embora no mesmo estilo que o livro irmão, e com uma história, a meu ver, muito mais dark, não conseguiu chegar ao nível de Gone Girl em termos de qualidade. Sim, eu sei que fazer estas comparações não é justo, mas não deixa de ser inevitável, principalmente quando o primeiro é um livro tão poderoso.
Sharp Objects ganha em realismo: neste, acreditei mais de que seria algo que pudesse realmente acontecer numa qualquer cidade do sul dos Estados Unidos, onde as comunidades ficaram presas numa época em que era tudo vestidos rodados, meninas bonitas e homens do campo. A história de vida de Camille é triste e difícil, mas não deixou de a tornar uma mulher forte e independente - e, por isso, imediatamente nos conseguimos ligar a ela.
Em parte, acho que este livro é uma ode à resiliência feminina, às mulheres que aguentam passar por verdadeiros infernos e ainda reservam em si o poder de perdoar (a elas mesmas e ao mundo), e de seguir em frente com as suas vidas, seja de que forma for. Alguém que tenha passado por algo que o/a marcou vai sentir-se compreendido por Camille, que embora tenha uma história mais fucked up que a maior parte das pessoas, compreende que ser ou estar broken num momento, não é a mesma coisa que o ser ou estar para sempre; e que, por vezes, as coisas tornam-se demasiado, e que vamos ter de cair para nos podermos levantar.
Nesse sentido, é impossível que este livro não nos toque. Sentimos pena de Camille, mas também nos orgulhamos ela, e da sua determinação em existir, em ser, apesar de tudo aquilo que a ameaça levar (de novo) para o fundo do poço. A relação mãe-filha em que este livro se foca também me fez pensar na pressão que por vezes sentimos em corresponder a expectativas (muitas das vezes impossíveis) que os nossos entes queridos colocam sobre os nossos ombros - e o quão, por vezes isso se torna overwhelming ao ponto de poder vir a causar destruição nas nossas vidas. Ou, simplesmente, nos fazer sentir sozinhos e isolados.
Quanto ao final, não deixa de ser interessante que, no que à história geral, à big picture, diz respeito, o rumo é o esperado, e a meio já se sabe como vai acabar. Não é uma coisa que costume gostar muito: prefiro não saber as revelações mesmo até aos momentos finais. Neste livro não me incomodou tanto, provavelmente por estar impecavelmente escrito, e por ser uma história curta, que precisava de closure e um final sem pontas soltas.
No entanto, no que toca a Camille, ficamos na dúvida em relação ao seu destino. Não li mais livros da autora e não sei se estar personagem torna a aparecer, mas Sharp Objects termina numa indefinição, numa crossroads. Nunca saberemos que caminho Camille escolheu tomar.
Se é de suspense, mistério e aquele lado humano que não nos gostamos de lembrar que existe que procuram, então não há que enganar com Gillian Flynn.
“I ached once, hard, like a period typed at the end of a sentence.”